(Um necessário informativo sobre os
diferentes tipos de parto e de atendimentos à gestante. Por Mariana Janeiro)
--------------
Antes de
tudo, é bom deixar claro: não sou
ativista. Salvo casos que exijam alguma interferência medica efetivamente
necessária, O PARTO DEVE SER UMA ESCOLHA
DA MULHER, E APENAS DELA. Não faço campanha online. Não vou à passeatas.
Apenas vou usar este espaço aqui (que é meu) para tentar transmitir algum
conhecimento que obtive e tentar desfazer o nó que o excesso de informações
erradas andam causando.
Sou Doula
na Tradição, formada pela escola CAIS do Parto, por Marcely e Marla Carvalho,
filhas de Suely Carvalho, parteira tradicional há mais de 30 anos e fundadora
do CAIS do Parto. Acompanhei, como fotógrafa, mais de 30 partos hospitalares e
exatos 7 partos domiciliares.
Sou Doula na Tradição. Não na humanização – que passou de ser
um termo usado para o tratamento que deveria ser dado às gestantes, para uma equivocada nomenclatura de ‘honra ao
mérito’. O que é uma pena. Explico mais adiante.
--------------
Acontece
que o parto nunca é uma questão até que se engravide. No meu caso, a primeira
coisa que pensei foi: “Ok, esse neném vai
precisar sair de algum jeito! Mas como?!”. Por sorte, eu já sabia a
resposta pra minha pergunta. Mas nem sempre acontece dessa forma.
Algumas
gestantes deixam para pensar no momento do parto apenas na reta final da
gestação, o que é uma pena. Mas eu não as culpo, pois nosso sistema de saúde
(publico e privado) não se preocupa em
abrir um diálogo honesto sobre o nascimento. E quando o fazem, na grande
maioria das vezes, ignoram ou os desejos (e medos) da gestante, ou ignoram os
sentimentos do bebê e todo o traumático processo de nascer.
Quando
vamos para a internet, vejo que existe uma confusão constante sobre as
principais diferenças entra o parto feito através de cesarianas, partos
normais, partos naturais, partos humanizados, parto na água, etc. Existe muita
confusão sobre os benefícios, sobre os malefícios, sobre a real necessidade de
sentir dor, sobre a real necessidade de uma anestesia. “Mas e se você faz o parto em casa e o bebê nasce com algum problema?
Ou e se a mãe passa mal? O que é essa tal da ocitocina? O que raios faz uma
Doula?” – essas e tantas outras perguntas que escuto frequentemente e que
sempre tento responder a quem me pergunta. Mas também vejo muita resposta
equivocada e, não há nada pior do que
causar confusão em uma gestante e na sua família, num momento tão delicado
quanto este.
Por conta
disso, vou tentar destrinchar todos os modelos de parto, procedimentos, equipe,
nomenclaturas e atendimentos que existem atualmente nos nossos moldes
brasileiros, com o maior número de detalhes e links que eu puder compartilhar.
Vou tentar fragmentar em várias partes, sendo que ultima parte (seja ela qual número
for, rs) será inteiramente dedicado aos Partos na Tradição. E o motivo é
simples: é onde eu atuo, é o qual eu me identifico e é o meio pelo qual escolhi
trazer Gael (e espero que seja este que
ele tenha escolhido também, ta bom filho? <3)
Espero que
ajude um pouquinho nesta decisão tão bonita e tão delicada que é a de como
trazer nossos herdeiros ao mundo :)
Toda a
caminhada para o parto consiste em antes (Pré-Natal), durante (trabalho de
parto e o ‘parto em si’) e depois (cuidados com o recém-nascido, assistência
pós-parto para a mãe, puerpério e amamentação). Vou começar do meio, onde a
confusão é maior.
Vamos lá!
--------------
PARTO HOSPITALAR POR OPERAÇÃO CESARIANA (ou
Cesárea)
Pode causar
estranheza eu ter colocado “operação cesariana”, mas o fato é que a famosa Cesárea
nada mais é do que uma cirurgia. Segue definição do dicionário:
Cesariana
s.f. Obstetrícia. Intervenção
cirúrgica para a extração de um feto do útero materno.
Assim, sem
massagem, a cesárea é sim uma cirurgia.
Apenas não é tratada como uma, tamanha a banalização e facilidade para se
fazer uma. Gosto de pensar da seguinte forma: ninguém chama o plantonista para
fazer uma cirurgia cardíaca. Mas sempre tem um plantonista pronto para
realizar uma cesárea.
Isso me soa
estranho, e ruim.
O Brasil é
um dos campeões em cesáreas desnecessárias. Entenda que, por desnecessárias, eu
quero dizer as que são eletivas (agendadas) onde a gravidez não apresentou
risco nem para a mãe e nem para bebê e onde ambos poderiam passar por um parto
normal (onde o bebê sai pela vagina) sem problemas.
Como eu
disse no começo, o parto é sim uma escolha da mãe. Mas fica um pouco mais
difícil fazer essa escolha quando os MITOS aparecem, alguns dos mitos são:
- A mulher não tem dilatação.
- O cordão
umbilical, se estiver enrolado no pescoço do bebê, pode levar à morte.
- Cesárea
não dói e é mais segura.
- O bebê é
grande mais e não vai passar pelo canal vaginal.
- As
contrações de um parto normal são insuportáveis e o processo é longo demais.
Engraçado é
perceber que a grande maioria dos questionamentos são sobre o parto normal. Até
onde pude constatar, não há grandes duvidas sobre a Cesárea: é só cortar, o bebê sair, tirar uma selfie e
ir para o quarto. O que mais me assusta não é a facilidade do raciocínio
(pois ele é realmente bem simples mesmo) mas sim o fato de que, com a cesárea o parto tornou-se um evento
da medicina, onde a mãe é coadjuvante e o bebê é o produto final. Digo isso
com convicção, pois vi de pertinho mais de 30 nascimentos hospitalares e, em
quase todos eles, o descaso com a mãe (num dos momentos mais frágeis da vida de
uma mulher) e o tratamento em massa que é dado aos bebês, ficou evidente.
Em defesa
ao parto normal (por via vaginal, é bom lembrar) tenho duas grandes considerações:
- O bebê
Até onde me
consta, quando uma cesárea é agendada, ninguém
perguntou ao bebê se ele estará pronto para vir ao mundo. O que muita gente
desconfia, é verdade: a conta do médico nem sempre está certa. A menos que você
saiba exatamente a data da concepção, é tudo um mistério e como todo mistério,
é cheio de variáveis.
Sou ruim de
conta, mas sei que a conta dos médicos vai até 40 semanas de gestação. Passou
disso entram os mitos (citados daqui a pouco) como: o bebê passou do tempo. Que
tempo? O dele ou o nosso? Complicado, não é?! E, se a conta do médico não é
muito exata, ele já pode estar de 41 semanas como também de... 38! Pois é.
Nós (da
Tradição) acreditamos que o bebê tem o tempo dele e esse tempo é exato e sábio.
Nem mais, nem menos. Ele dará seus sinais de que quer e precisa sair, e assim
será feito. Pra que apressar as coisas?
Fora tudo
isso, o que pouca gente se atenta é o fato de que o nascimento é uma ruptura
muito maior para eles do que nós podemos imaginar. Quando nascem, é a sua
primeira grande vitória e eles precisam fazer esse caminho do jeito mais
natural possível: sem grandes sustos, sem serem removidos à força e fora do seu
tempo.
Respeitar a mãe é essencial. Mas respeitar
o bebê também deveria ser uma prioridade. Digo isso pois, além da questão
do tempo temos também uma série de procedimentos (muitas vezes desnecessárias)
aos quais os recém-nascidos são submetidos: aspiração do nariz, colírios,
remoção imediata do colo da mãe, não-incentivo ao aleitamento materno nas primeiras
horas de vida, o banho (porque sim, aquela gosminha branca, chamada vérnix, é
muito boa para eles), e o corte do cordão umbilical enquanto ele ainda pulsa.
Tudo isso você pode encontrar bem explicadinho NESTE LINK .
- A famosa (E MUITO REAL) violência
obstétrica.
Ela ficou
famosa, ganhou imprensa e destaque só para nos dizer que: O sistema obstétrico
está cada dia mais podre e menos humanizado. (Neste texto, não pretendo dialogar sobre, apenas expor. Mas deixo o
dialogo mais do que aberto e convido a quem se interessar para se manifestar
nos comentários). A violência
obstétrica acontece para todos os graus sociais, em todos os hospitais
(particulares ou públicos). Começa antes mesmo da mulher ser admitida e quem
acredita que termina quando ela tem alta está MUITO enganado. O ciclo vicioso
funciona mais ou menos assim:
O médico
diz para a mulher que “Semana que vem já estamos na 40a semana,
vamos marcar a sua cesárea!” e a mulher, claro, aceita. Por confiar no médico e
temer que qualquer coisa de ruim possa acontecer à criança.
Chegando no
hospital, ela precisa muitas vezes escolher: ou o marido, ou a doula (se ela
tiver uma) ou o fotógrafo (se ela quiser registrar). Não há a menor chance
dessas três pessoas entrarem juntas. Se a gestante quer a mãe dela e o marido,
não pode também. A lei diz que ela tem direito a UM acompanhante, e é apenas
isso que ela vai ter.
Daí pra
frente, o show de horror desanda:
-
Tricotomia, que é a raspagem dos pelos pubianos – e, convenhamos, um processo
bem do humilhante.
- Estourar
a bolsa d’agua para ‘acelerar’ o trabalho de parto
- Aplicação
de ocitocina sintética (que, é um hormônio produzido naturalmente) sem o
consentimento da mulher.
- Ofensas e
humilhação da gestante e familiares (não foram raras as vezes que ouvi coisas
como: “Na hora de fazer não gritou né?”, “Cala a boca!”, “Por que grita tanto?”
e outras...)
-
Discriminação racial – é comprovado que as mulheres negras esperam mais por um
atendimento do que as outras mulheres.
- Exames de
toque frequentes, desnecessários e feitos sem o menor cuidado.
- Total
descomprometimento da equipe com a gestante.
- Nenhuma
sugestão para a troca de posição durante o trabalho de parto (que, além de
desconfortável é, por si só, contra a gravidade)
- Episiotomia,
nome dado ao corto que é feito entre a vagina e o ânus para facilitar a saída
do bebê (na desculpa de que ele sairá mais fácil e que ‘o bebê ia rasgar
naturalmente mesmo’)
- Uso de fórceps.
- Manobra
de Kristeller, que é a pressão feita sobre a barriga (muitas vezes por
enfermeiros enormes e muito fortes) para empurrar o bebê (!!!!!!)
- Não
deixar que a recém-nascido venha diretamente para o colo da mãe assim que
nasce, mantendo a mesma amarrada à cama.
Quando uma
mulher tem consciência do seu corpo, deseja um parto natural e acaba (por
inúmeras razões) tendo um parto por cesárea, acontece o óbvio: a mulher tem o seu parto roubado. E
com ele, parte da sua humanidade, do seu ser e da dignidade. Além do filho,
resta muito pouco. Perto das feridas físicas, a ferida na alma é algo que
demora para cicatrizar. SE um dia se cicatriza.
Contra
fatos, não há argumentos. Por isso, deixo aqui o link direto para um
documentário que toca direto e reto na ferida (literalmente):
http://youtu.be/eg0uvonF25M
PORÉM....
Em
contrapartida, devo defender também que SIM, em alguns casos a cesárea é bendita, bem vinda e salva vidas.
Alguns casos são:
-
Eclampsia, que é uma hipertensão que a mulher desenvolve durante a gestação.
- Diabetes
alta e grave.
- Gestantes
portadoras de HIV
- Casos de
placenta prévia total, quando o deslocamento da placenta bloqueia a saída do
bebê.
- Prolapso,
quando o cordão umbilical sai antes do bebê, cortando o fluxo de sangue para
ele.
Sobre os
mitos e verdades, é possível saber de quase todos eles NESTE LINK. A escrita é um pouco irônica, mas a informação é
válida.
A cesárea não é vilã. A desinformação, sim.
Mas existem
as mulheres que realmente não querem sentir dor, que por algum motivo precisem
imprescindivelmente agendar a data do parto, que sentem um medo muito real do
parto normal e que irão se sentir mais seguras na precisa de uma equipe médica
treinada – minha prima é uma delas. Elas escolheram sim ter a cesárea por algum
tipo de conveniência. E o que nós temos a ver com isso? Nada! Deveríamos
respeitar quem opta por este modo de trazer os filhos ao mundo, uma vez que
ninguém sabe o peso da carga que a outra carrega.
E é neste
ponto onde eu acho que, honestamente, as ativistas da humanização falham. E
falham feio. Já cansei de sentir vergonha alheia e tristeza em fóruns do
Facebook quando uma mãe diz que OPTOU pela cesárea e, praticamente segundos
depois, um batalhão ‘humanizado’ aparece para julgar a opção e,
instantaneamente, fazer essa mulher se sentir menos mãe, menos mulher, menos
merecedora do filho que tem.
Chega a ser
um absurdo que denominem-se ativistas humanizadas uma vez que, assumindo essa
postura, tiram pouco a pouco a humanidade daquela que está ali muitas vezes
precisando de apoio, de ajuda, de empoderamento.
Estamos
aqui e precisamos uma das outras para que tenhamos autonomia, que sejamos
informadas e que, com isso, possamos fazer a escolha que nos parecer melhor e
mais segura! :)
Na próxima
parte pretendo abordar o parto normal (hospitalar) e o tão famoso parto natural
em hospital. Será que ele existe mesmo?
Até!
<3