segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O Parto... é um Parto! (Parte I)

(Um necessário informativo sobre os diferentes tipos de parto e de atendimentos à gestante. Por Mariana Janeiro)

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Antes de tudo, é bom deixar claro: não sou ativista. Salvo casos que exijam alguma interferência medica efetivamente necessária, O PARTO DEVE SER UMA ESCOLHA DA MULHER, E APENAS DELA. Não faço campanha online. Não vou à passeatas. Apenas vou usar este espaço aqui (que é meu) para tentar transmitir algum conhecimento que obtive e tentar desfazer o nó que o excesso de informações erradas andam causando.
Sou Doula na Tradição, formada pela escola CAIS do Parto, por Marcely e Marla Carvalho, filhas de Suely Carvalho, parteira tradicional há mais de 30 anos e fundadora do CAIS do Parto. Acompanhei, como fotógrafa, mais de 30 partos hospitalares e exatos 7 partos domiciliares.
Sou Doula na Tradição. Não na humanização – que passou de ser um termo usado para o tratamento que deveria ser dado às gestantes, para uma equivocada nomenclatura de ‘honra ao mérito’. O que é uma pena. Explico mais adiante.

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Acontece que o parto nunca é uma questão até que se engravide. No meu caso, a primeira coisa que pensei foi: “Ok, esse neném vai precisar sair de algum jeito! Mas como?!”. Por sorte, eu já sabia a resposta pra minha pergunta. Mas nem sempre acontece dessa forma.
Algumas gestantes deixam para pensar no momento do parto apenas na reta final da gestação, o que é uma pena. Mas eu não as culpo, pois nosso sistema de saúde (publico e privado) não se preocupa em abrir um diálogo honesto sobre o nascimento. E quando o fazem, na grande maioria das vezes, ignoram ou os desejos (e medos) da gestante, ou ignoram os sentimentos do bebê e todo o traumático processo de nascer.

Quando vamos para a internet, vejo que existe uma confusão constante sobre as principais diferenças entra o parto feito através de cesarianas, partos normais, partos naturais, partos humanizados, parto na água, etc. Existe muita confusão sobre os benefícios, sobre os malefícios, sobre a real necessidade de sentir dor, sobre a real necessidade de uma anestesia. “Mas e se você faz o parto em casa e o bebê nasce com algum problema? Ou e se a mãe passa mal? O que é essa tal da ocitocina? O que raios faz uma Doula?” – essas e tantas outras perguntas que escuto frequentemente e que sempre tento responder a quem me pergunta. Mas também vejo muita resposta equivocada e, não há nada pior do que causar confusão em uma gestante e na sua família, num momento tão delicado quanto este.
Por conta disso, vou tentar destrinchar todos os modelos de parto, procedimentos, equipe, nomenclaturas e atendimentos que existem atualmente nos nossos moldes brasileiros, com o maior número de detalhes e links que eu puder compartilhar. Vou tentar fragmentar em várias partes, sendo que ultima parte (seja ela qual número for, rs) será inteiramente dedicado aos Partos na Tradição. E o motivo é simples: é onde eu atuo, é o qual eu me identifico e é o meio pelo qual escolhi trazer Gael (e espero que seja este que ele tenha escolhido também, ta bom filho? <3)

Espero que ajude um pouquinho nesta decisão tão bonita e tão delicada que é a de como trazer nossos herdeiros ao mundo :)

Toda a caminhada para o parto consiste em antes (Pré-Natal), durante (trabalho de parto e o ‘parto em si’) e depois (cuidados com o recém-nascido, assistência pós-parto para a mãe, puerpério e amamentação). Vou começar do meio, onde a confusão é maior.
Vamos lá!

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PARTO HOSPITALAR POR OPERAÇÃO CESARIANA (ou Cesárea)

Pode causar estranheza eu ter colocado “operação cesariana”, mas o fato é que a famosa Cesárea nada mais é do que uma cirurgia. Segue definição do dicionário:

Cesariana
s.f. Obstetrícia. Intervenção cirúrgica para a extração de um feto do útero materno.

Assim, sem massagem, a cesárea é sim uma cirurgia. Apenas não é tratada como uma, tamanha a banalização e facilidade para se fazer uma. Gosto de pensar da seguinte forma: ninguém chama o plantonista para fazer uma cirurgia cardíaca. Mas sempre tem um plantonista pronto para realizar uma cesárea.
Isso me soa estranho, e ruim.
O Brasil é um dos campeões em cesáreas desnecessárias. Entenda que, por desnecessárias, eu quero dizer as que são eletivas (agendadas) onde a gravidez não apresentou risco nem para a mãe e nem para bebê e onde ambos poderiam passar por um parto normal (onde o bebê sai pela vagina) sem problemas.

Como eu disse no começo, o parto é sim uma escolha da mãe. Mas fica um pouco mais difícil fazer essa escolha quando os MITOS aparecem, alguns dos mitos são:
- A mulher não tem dilatação.
- O cordão umbilical, se estiver enrolado no pescoço do bebê, pode levar à morte.
- Cesárea não dói e é mais segura.
- O bebê é grande mais e não vai passar pelo canal vaginal.
- As contrações de um parto normal são insuportáveis e o processo é longo demais.

Engraçado é perceber que a grande maioria dos questionamentos são sobre o parto normal. Até onde pude constatar, não há grandes duvidas sobre a Cesárea: é só cortar, o bebê sair, tirar uma selfie e ir para o quarto. O que mais me assusta não é a facilidade do raciocínio (pois ele é realmente bem simples mesmo) mas sim o fato de que, com a cesárea o parto tornou-se um evento da medicina, onde a mãe é coadjuvante e o bebê é o produto final. Digo isso com convicção, pois vi de pertinho mais de 30 nascimentos hospitalares e, em quase todos eles, o descaso com a mãe (num dos momentos mais frágeis da vida de uma mulher) e o tratamento em massa que é dado aos bebês, ficou evidente.

Em defesa ao parto normal (por via vaginal, é bom lembrar) tenho duas grandes considerações:

- O bebê
Até onde me consta, quando uma cesárea é agendada, ninguém perguntou ao bebê se ele estará pronto para vir ao mundo. O que muita gente desconfia, é verdade: a conta do médico nem sempre está certa. A menos que você saiba exatamente a data da concepção, é tudo um mistério e como todo mistério, é cheio de variáveis.
Sou ruim de conta, mas sei que a conta dos médicos vai até 40 semanas de gestação. Passou disso entram os mitos (citados daqui a pouco) como: o bebê passou do tempo. Que tempo? O dele ou o nosso? Complicado, não é?! E, se a conta do médico não é muito exata, ele já pode estar de 41 semanas como também de... 38! Pois é.
Nós (da Tradição) acreditamos que o bebê tem o tempo dele e esse tempo é exato e sábio. Nem mais, nem menos. Ele dará seus sinais de que quer e precisa sair, e assim será feito. Pra que apressar as coisas?
Fora tudo isso, o que pouca gente se atenta é o fato de que o nascimento é uma ruptura muito maior para eles do que nós podemos imaginar. Quando nascem, é a sua primeira grande vitória e eles precisam fazer esse caminho do jeito mais natural possível: sem grandes sustos, sem serem removidos à força e fora do seu tempo.
Respeitar a mãe é essencial. Mas respeitar o bebê também deveria ser uma prioridade. Digo isso pois, além da questão do tempo temos também uma série de procedimentos (muitas vezes desnecessárias) aos quais os recém-nascidos são submetidos: aspiração do nariz, colírios, remoção imediata do colo da mãe, não-incentivo ao aleitamento materno nas primeiras horas de vida, o banho (porque sim, aquela gosminha branca, chamada vérnix, é muito boa para eles), e o corte do cordão umbilical enquanto ele ainda pulsa. Tudo isso você pode encontrar bem explicadinho NESTE LINK .

- A famosa (E MUITO REAL) violência obstétrica.
Ela ficou famosa, ganhou imprensa e destaque só para nos dizer que: O sistema obstétrico está cada dia mais podre e menos humanizado. (Neste texto, não pretendo dialogar sobre, apenas expor. Mas deixo o dialogo mais do que aberto e convido a quem se interessar para se manifestar nos comentários). A violência obstétrica acontece para todos os graus sociais, em todos os hospitais (particulares ou públicos). Começa antes mesmo da mulher ser admitida e quem acredita que termina quando ela tem alta está MUITO enganado. O ciclo vicioso funciona mais ou menos assim:

O médico diz para a mulher que “Semana que vem já estamos na 40a semana, vamos marcar a sua cesárea!” e a mulher, claro, aceita. Por confiar no médico e temer que qualquer coisa de ruim possa acontecer à criança.
Chegando no hospital, ela precisa muitas vezes escolher: ou o marido, ou a doula (se ela tiver uma) ou o fotógrafo (se ela quiser registrar). Não há a menor chance dessas três pessoas entrarem juntas. Se a gestante quer a mãe dela e o marido, não pode também. A lei diz que ela tem direito a UM acompanhante, e é apenas isso que ela vai ter.

Daí pra frente, o show de horror desanda:
- Tricotomia, que é a raspagem dos pelos pubianos – e, convenhamos, um processo bem do humilhante.
- Estourar a bolsa d’agua para ‘acelerar’ o trabalho de parto
- Aplicação de ocitocina sintética (que, é um hormônio produzido naturalmente) sem o consentimento da mulher.
- Ofensas e humilhação da gestante e familiares (não foram raras as vezes que ouvi coisas como: “Na hora de fazer não gritou né?”, “Cala a boca!”, “Por que grita tanto?” e outras...)
- Discriminação racial – é comprovado que as mulheres negras esperam mais por um atendimento do que as outras mulheres.
- Exames de toque frequentes, desnecessários e feitos sem o menor cuidado.
- Total descomprometimento da equipe com a gestante.
- Nenhuma sugestão para a troca de posição durante o trabalho de parto (que, além de desconfortável é, por si só, contra a gravidade)
- Episiotomia, nome dado ao corto que é feito entre a vagina e o ânus para facilitar a saída do bebê (na desculpa de que ele sairá mais fácil e que ‘o bebê ia rasgar naturalmente mesmo’)
- Uso de fórceps.
- Manobra de Kristeller, que é a pressão feita sobre a barriga (muitas vezes por enfermeiros enormes e muito fortes) para empurrar o bebê (!!!!!!)
- Não deixar que a recém-nascido venha diretamente para o colo da mãe assim que nasce, mantendo a mesma amarrada à cama.

Quando uma mulher tem consciência do seu corpo, deseja um parto natural e acaba (por inúmeras razões) tendo um parto por cesárea, acontece o óbvio: a mulher tem o seu parto roubado. E com ele, parte da sua humanidade, do seu ser e da dignidade. Além do filho, resta muito pouco. Perto das feridas físicas, a ferida na alma é algo que demora para cicatrizar. SE um dia se cicatriza.

Contra fatos, não há argumentos. Por isso, deixo aqui o link direto para um documentário que toca direto e reto na ferida (literalmente):

http://youtu.be/eg0uvonF25M

PORÉM....

Em contrapartida, devo defender também que SIM, em alguns casos a cesárea é bendita, bem vinda e salva vidas. Alguns casos são:
- Eclampsia, que é uma hipertensão que a mulher desenvolve durante a gestação.
- Diabetes alta e grave.
- Gestantes portadoras de HIV
- Casos de placenta prévia total, quando o deslocamento da placenta bloqueia a saída do bebê.
- Prolapso, quando o cordão umbilical sai antes do bebê, cortando o fluxo de sangue para ele.

Sobre os mitos e verdades, é possível saber de quase todos eles NESTE LINK. A escrita é um pouco irônica, mas a informação é válida.


A cesárea não é vilã. A desinformação, sim.

Mas existem as mulheres que realmente não querem sentir dor, que por algum motivo precisem imprescindivelmente agendar a data do parto, que sentem um medo muito real do parto normal e que irão se sentir mais seguras na precisa de uma equipe médica treinada –  minha prima é uma delas. Elas escolheram sim ter a cesárea por algum tipo de conveniência. E o que nós temos a ver com isso? Nada! Deveríamos respeitar quem opta por este modo de trazer os filhos ao mundo, uma vez que ninguém sabe o peso da carga que a outra carrega.

E é neste ponto onde eu acho que, honestamente, as ativistas da humanização falham. E falham feio. Já cansei de sentir vergonha alheia e tristeza em fóruns do Facebook quando uma mãe diz que OPTOU pela cesárea e, praticamente segundos depois, um batalhão ‘humanizado’ aparece para julgar a opção e, instantaneamente, fazer essa mulher se sentir menos mãe, menos mulher, menos merecedora do filho que tem.
Chega a ser um absurdo que denominem-se ativistas humanizadas uma vez que, assumindo essa postura, tiram pouco a pouco a humanidade daquela que está ali muitas vezes precisando de apoio, de ajuda, de empoderamento.

Estamos aqui e precisamos uma das outras para que tenhamos autonomia, que sejamos informadas e que, com isso, possamos fazer a escolha que nos parecer melhor e mais segura! :)

Na próxima parte pretendo abordar o parto normal (hospitalar) e o tão famoso parto natural em hospital. Será que ele existe mesmo?

Até!
<3



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